O “Retrato d'Alma”
fotografia, pintura e êcfrase em Senhora (1875), de José de Alencar
DOI:
https://doi.org/10.51427/com.jcs.2025.8.6Palavras-chave:
Charles Baudelaire, fotografia, José de Alencar, narrativa, pintura, século XIXResumo
Desde o Renascimento, a janela tornou-se um dispositivo espacial de grande importância para a arquitetura e a pintura, ao mediar diferentes universos físicos e metafóricos e transformando-se em uma “janela-quadro” (Lungo). A partir do século XIX essa dialética entre o interior e o exterior passa a materializar-se na personagem da mulher à janela, como um novo topos literário. Filtrado pela imaginação e impregnado de subjetividade, o horizonte entra assim “em ressonância com a paisagem interior” (Lungo), abrindo-se para perspectivas ilimitadas. Balzac atribui um estatuto incomparável a esse topos. Depois os naturalistas, escancarando as mazelas da sociedade, associam-no a um novo tipo de prostituição, não mais aquela realizada nas ruas, mas no interior da janela-quadro. Expor-se à janela implicaria uma condição social nova e essencialmente voyeurista, cujas ricas potencialidades seriam testadas pela ficção, culminando em um “estupro da intimidade” (Milner). Senhora (1875), obra-prima de José de Alencar, incorpora criticamente esse topos ao dialogar com uma nova forma de representação, que é a fotografia. Pode-se dizer que esse romance atualiza em termos ficcionais a discussão que Baudelaire propusera anos antes, em seus Salões de 1846 e 1859, sobre a modificação do estatuto da obra de arte após o surgimento da fotografia.
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